o quebra… o bate… o cospe… o maltrata…

Aquela coisa de sempre… música… poesia… bebida… mulheres… tecnologia… enfim… os motores do mundo.

12  04 2008

Aconteceu…

Deliciosa demais a sensação da descoberta… esta avidez por sorver mais… e mais… e perceber cada pequeno detalhe… Parece que o mundo abre-se sob novo prisma, e os sentidos ficam todos tão mais receptivos. Pois é… Acabo de descobrir a Cristina Branco.

Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias

Que os romances e a memória
Têm costume de contar

Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar

Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor


10  04 2008

A Colômbia de Ingrid Betancourt

Ingrid Betancourt

Foi a este ponto que chegamos? Que tipo de ideal, por mais louvável que seja, vale isto?

Postado originalmente no Defenderoquadrado.


04 2008

Eu, desempregado

Charlie Chaplin

Após quase 6 anos trabalhando na mesma empresa, fui demitido semana passada. Num desses processos de fusão entre instituições, tão comuns em tempos de economia globalizada e em que os resquícios de identificação, objetivos e direcionamentos sócio-filosóficos que porventura cada uma delas pudesse ter acabam perdendo-se um pouco em meio à lógica feroz do capital, que com sua assepsia niveladora e padronizadora tende a tudo assimilar acabei preferindo, por este ou aquele motivo, procurar outros caminhos pra minha vida.

A questão é que estou, após um enorme e constante período de atividade, em casa. Não deixa de ser uma sensação esquisita que, acostumado que sempre fui desde a adolescência a “estar produtivo”, me pegue agora pensando sobre o modo deturpado como eu talvez esteja conceituando produtividade; como qualquer coisa que remeta de certo modo a Carlitos, a um daqueles teóricos da teorias da administração do início do século passado, ou pior (e mais simbólico ainda), a um enorme, barulhento e azeitado conjunto de engrenagens em funcionamento.

Como ainda não tive tempo pra assimilar completamente minha nova situação, creio que somente lá pelo meio da semana que vem eu me pegue receando o desconhecido… por agora, me tem deliciado dum modo que eu não esperava coisas as mais simples, como por exemplo o fato de não ter rotina ou horário algum a seguir. Acordar sem ter de antecipadamente planejar o dia enquanto dou a rápida olhada no relógio é um deleite dos mais agradáveis, e já me percebi observando com olhar um pouco mais clínico do que o que seria de imaginar em alguém com meu temperamento pequenas coisas em casa que precisam ser feitas. Nos ítens “por fazer” já limpei meu aquário… pus certa ordem em meu quarto… estou organizando livros que pretendia ler desde sempre,.. venho ainda focando uma linguagem de programação com a qual pretendo trabalhar logo logo… refazendo contatos de trabalho… assistindo episódios de Anos Incríveis que ainda não tinha visto… dedicando-me à cachorrinha… a ver a tarde chegar pela janela do meu quarto (e é incrível como, morando neste mesmo lugar há tanto tempo eu não tivesse a mínima idéia de como que era o entardecer visto do meu quarto!), e mais outro tanto de pequenas coisas a uma primeira vista “desinteressantes”, mas ainda assim parte importantíssima neste processo de ócio criativo ao qual venho me dedicando.

Sobre o que vem pela frente eu não tenho a mínima idéia… afinal, é completamente nova pra mim a experiência de não ter emprego formal. Seja lá como for, vamos ver se consigo manter as engrenagens funcionais… Quem sabe se não encontro, no bem no meio deste intervalo entre “não fazer nada” e “arranjar novo trabalho”, o segredo do moto-perpétuo?


04 2008

Gonna fly now

It aint over till it\'s over

Quando vi da primeira vez, custei a acreditar… Rocky Balboa está em cima de um ringue uma vez mais!! E daí que se trate de um Stallone alquebrado pelo tempo (o provável pior dos adversários que já enfrentou)? Que podem, afinal, seis décadas de vida contra o eterno garanhão italiano? Aquele sujeito de olhar firme e duro, passional como todo boxeador que honre o nome deve ser. Eye of the tiger, Rocky! Os movimentos são sim, bem mais lentos e pesados. Mas o olhar, atualmente emoldurado por generosas doses de Botox, ainda está bem ali… e ainda assusta!

Quem quer que, como eu, esteja na faixa dos 30 anos, muito provavelmente conhece de cor os adversários de Rocky. Eram todos sujeitos enormes, prepotentes e fortíssimos e que, pelo menos em condições normais, nunca seriam derrotados por aquele abusado orgulhoso descendente de italianos da Filadélfia (devo aliás, admitir de público um pequeno detalhe: sim… eu gostava tanto da cena da escada que vivia imitando-a… não houve como não lembrar disto quando vi o finalzinho do filme). Só que é justamente aí é que está toda a magia dos filmes de Rocky. O que o torna, a meu ver, diferente da grande maioria dos heróis do cinema moderno é esta sensação que fica o tempo todo em quem o vê de que ele é só um sujeito da vizinhança… Aquele indivíduo meio bronco, que faz compras ali no mercadinho, e é apaixonado meio que em segredo pela irmã do amigo (no nosso caso, o velho e rabugento Paulie), tem valores simples de vida, gosta da mulher e dos amigos de uma forma sincera e apaixonada, tem um emprego comum, medo diante dos obstáculos da vida e que, principalmente, vai até onde tiver que ir e, não importando quão grande, assustador ou indestrutível seja quem esteja do outro lado, vai e ganha - ou não… e a simples possibilidade da derrota (possibilidade esta não tão remota, a julgar pelos resultados de suas lutas com Apolo Creed, por exemplo) é que o torna tão humano… tão próximo de cada um de nós.

É interessante perceber como a trajetória dos filmes de Rocky Balboa parece acompanhar passo a passo as mudanças pelas quais o mundo vinha passando na época em que eram filmados. É emblemática a meu ver a luta contra Ivan Drago, por exemplo. Se ali Balboa não for a personificação mais completa do cidadão americano médio, mostrando quão magnânimo poderia ser em sua luta contra tudo que é mau e sujo (e consideremos “maldade” e “sujeira” aqui o uso constante de anabolizantes e a atitude praticamente robótica do lutador soviético), não sei o que mais seria… E mais uma vez, Balboa treina e contra todas as adversidades, sua truculência simplória vence o arcabouço tecnológico que se formou à volta do russo.

Rocky sempre foi um herói único. Incorporou como nenhum outro a idéia da possibilidade da vitória ante o impossível. Afinal, segundo palavras do próprio Balboa, não importa tanto quão duro se bate… o que vale mesmo é por quanto tempo se aguenta apanhar e se continua de pé… e continuar e pé… bom… é com Rocky Balboa mesmo!


04 2008

Para Johannes Mario Simmel

Era noite de domingo. Muito fria… chuvosa demais… E o menino vestido de trapos tremia. Era uma chuva muito grossa, daquelas que caem fazendo alarde, e a gente quando olha pro céu chega a ter medo… Da escuridão em cujas entranhas a vista não consegue entrar, apesar de nem ser ainda tão noite… do peso de bloco enorme e coeso de nuvens às vezes cinzas, outras pretas… A chuva torrencial que caía já seria dolorosamente fria pra um adulto… e ele era só um menino (vestido de trapos), que do alto da inocência dos mal completados treze anos tentava como melhor podia se arranjar no meio de pedaços de papelão já tão ensopados que já se tinham tornado num bolo disforme de qualquer coisa descolorida. O menino vestido de trapos tremia de tal forma que já não sentia as caimbras nas pernas, desconfortáveis que estavam pela posição de semi cócoras. E ele já pensava com dificuldade… olhava os reflexos amarelados e incertos que os poucos carros que passavam rápidos riscavam na pista logo à sua frente. E dos carros o pensamento voa pra algumas semanas antes, quando tudo que fazia sentido em sua vida desaparecera… sempre fora filho de família pobre. Saía muito cedo de casa pra ajudar como podia na renda da família. Vendia doces… engraxava sapatos… e naquela noite fatídica voltara do dia de trabalho pra ver a confusão enorme próximo ao barraco onde morava. Com as chuvas, houvera um deslizamento. Tudo que era seu se perdera. O minúsculo quarto… os poucos brinquedos de latas e pregos… as roupas… os pais… E foi só muitas horas depois, quando já tinham se ido os homens de gravata e os policiais, que o menino (que até ali, mesmo com toda a sua pobreza, nunca vestira trapos) percebera o alcance de tudo aquilo. Não tinha mais sua mãezinha… nem tampouco o pai, carinhoso lá do jeito ríspido que a vida o forçara a ter. Não tinha mais ninguém no mundo. E saiu andando… não sabia pra onde iria… nem lhe importava muito. As últimas semanas foram de um mendigar aqui e ali, até chegar àquela praça, que pelo menos era um bom lugar pra passar as noites. Pelo menos quando não chovia…

A viúva levantou um pouco os olhos em completo êxtase. Era como se a mornidão daquele ambiente de completa elevação espiritual fosse imune às intempéries da natureza agindo logo ali tão perto. De vez em quando chegava, como que desafiando a atmosfera abafada do lugar, uma rajada de vento frio e cortante vinda de fora. Mas era logo como que rechaçado pelo calor de tantos corpos juntos, que acabavam por se fazer mais fortes pela força de seus cantos, entoados sob luz oscilante das velas e das lâmpadas, e o cheiro forte e inebriante do incenso. Nestes últimos meses estes eram os poucos momentos em que tinha um pouco de paz interior. O marido, já falecido há muitos anos era hoje uma pálida e distante lembrança de tempos mais felizes… Nunca casara novamente, e a alegria única e maior de sua vida era o filho. Menino caprichoso, cursava medicina e orgulhava a mãe com sua natureza bondosa e sonhadora. A notícia de sua morte num assalto quando voltava dum barzinho onde havia ido com uns amigos havia sido um choque tão grande que ela nem chorara… É que acalentava secretamente a esperança de vê-lo entrar pela porta a qualquer momento, o ar despreocupado e juvenil, beijar-lhe a testa e lhe contar de seu dia. Daí não ter acompanhado os noticiários, nem ter sabido que haviam sido presos e julgados os assassinos do filho. E nem lhe interessaria… O filho viria um dia, com a doçura característica do olhar, e sorriria pra ela. Era nisso que pensava quando, olhando mais uma vez a beleza da arquitetura a sua volta, cercada por santos de semblantes bondosos, levantou-se com a leveza e serenidade natural nos que tem crença.

Puxa, como estava frio!! Mas pelo menos a chuva havia passado. Agora era só a fúria da água que, entupidos os bueiros, procurava por onde escoar. Desceu vagarosamente a escadaria da igreja e passava pela praça quando notou o que parecia ser um monte de papelão se mexendo. A curiosiade venceu o medo, e aproximou-se mais alguns passos. O papelão tremeu um pouco, e apareceu uma pequena mão. Não era um animal procurando restos de comida. Havia uma pessoa ali! O primeiro instinto ainda foi se afastar… mas a mãozinha era tão pequena… parou. Era um menino. Um menino vestido de trapos. E olhava pra ela. E tremia tanto. E os olhos… os olhos eram de uma desesperança tão grande… mas ao mesmo tempo havia tanta ternura… tanta carência…

- Ei menino. Onde você mora?
- Moro em lugar nenhum não… Durmo aqui.
- Não está com frio?
- Muito…
- … (os olhos são duma ternura tão grande!)
- …
- Porquê não vem comigo? Vamos arranjar umas roupas secas pra você vestir…

E tocavam os sinos. Mas nenhum dos dois escutou…

O texto acima foi originalmente publicado em 26 de Junho de 2006


04 2008

Eduardo e Mônica revisitado

O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista. Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras que criava. E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso. Como no caso da música Eduardo e Mônica, do álbum “Dois” da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos. Analisemos o que diz a letra.

Logo na segunda estrofe, o autor insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram) ao mesmo tempo que tenta dar uma imagem forte e charmosa à Mônica (enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.

Mais à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura (Festa estranha, com gente esquisita). Bom, “Festa estranha” significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poderem fugir da realidade com a desculpa esfarrapada de que são contra o sistema. “Gente esquisita” é, basicamente, um bando de sujeitos que têm o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais horrorosas da via-láctea. Enfim, esta era a tal “festa legal” em que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra agüentar aquele pesadelo, como veremos a seguir.

Assim temos (- Eu não estou legal. Não agüento mais birita). Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Mônica, uma notória bêbada sem-vergonha do underground.

Adiante, ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram (E a Mônica riu e quis saber um pouco mais Sobre o boyzinho que tentava impressionar). Vamos por partes: em “E a Mônica riu” nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de Mônica para com Eduardo. Ela ri de um bêbado inexperiente! Mais à frente, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde lê-se “quis saber um pouco mais” leia-se” quis dar para”! É muita hipocrisia tentar passar uma imagem sofisticada da tal Mônica.

A verdade é que ela se sentiu bastante atraída pelo “boyzinho” que tentava impressionar”! É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo Eduardo como “boyzinho”. Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar com Mônica de bicicleta, como consta na quarta estrofe (Se encontraram então no parque da cidade A Mônica de moto e o Eduardo de camelo). Se alguém aí age como boy, esta seria Mônica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido, aos 16 (Ela era de Leão e ele tinha dezesseis) todo boyzinho já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina como Mônica.

E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo, valeu?

Na ocasião do seu primeiro encontro, vemos Mônica impor suas preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a uma humilde proposta do afável Eduardo (O Eduardo sugeriu uma lanchonete Mas a Mônica queria ver filme do Godard). Atitude esta, nada democrática para quem se julga uma liberal.

Na verdade, Mônica é o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual Metido à Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e viadinhos vestidos de preto em geral), que acham que todo filme americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado pra caralho e com bastante cenas de baitolagem.

Em seguida Russo utiliza o eufemismo “menina” para se referir suavemente à Mônica (O Eduardo achou estranho e melhor não comentar. Mas a menina tinha tinta no cabelo). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. Ainda há pouco vimos Mônica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Além disto, se Mônica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo fisgar um garotão viril. Ou então porque é uma baranga escrota.

O autor insiste em retratar Mônica como uma gênia sem par. (Ela fazia Medicina e falava alemão) e Eduardo como um idiota retardado (E ele ainda nas aulinhas de inglês). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente concorrido para Medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar “iéis”, “nou” e “mai neime is Eduardo”! Incomoda como são usadas as palavras “ainda” e “aulinhas”, para refletir idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente.

Na seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois (Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, De Van Gogh e dos Mutantes, De Caetano e de Rimbaud). Temos nesta lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.A., muito usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão “do Bandeira”. Francamente, “Bandeira” é aquele juiz que fica apitando impedimento na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí cortou a orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar “Êta” com “Tiêta” e neguinho ainda diz que ele é gênio!

Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo (E o Eduardo gostava de novela) e crianção (E jogava futebol de botão com seu avô). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a companhia do avô em um prosaico jogo de botões! É de tocar o coração. E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher sim, é maturidade pura.

Continuando, temos (Ela falava coisas sobre o Planalto Central, Também magia e meditação). Falava merda, isso sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente nada. Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa mole jogada por Mônica? Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda temos mais um achincalhe ao garoto (E o Eduardo ainda estava no esquema escola - cinema - clube - televisão). O que o Sr. Russo queria? Que o esquema fosse “bar da esquina - terreiro de macumba - sauna gay - delegacia”?? E qual é o problema de se ir a escola?!?

Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Mônica (Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar). Por ordem:

1) Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto.

2) Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo.

3) Quer saber? Teatro e artesanato é coisa de viado!!!

Agora temos os versos mais cretinos de toda a letra (A Mônica explicava pro Eduardo Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar algum. Vejamos: Mônica trabalha na previsão do tempo? Não. Mônica é geóloga? Não. Mônica é professora de química? Não. A porra da Mônica é alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca não saiba?

Novamente, Eduardo é retratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a Torre Eiffel após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência… Ainda em (Ele aprendeu a beber), não precisa ser muito esperto pra sacar com quem… é claro, com a campeã do alambique! Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis, como o código morse ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito bem, Mônica! Grande contribuição!

Depois, temos (deixou o cabelo crescer). Pobre Eduardo. Àquela altura, estava crente que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Mônica na cabeça do iludido Eduardo.

Sempre à frente em tudo, Mônica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade (E ela se formou no mesmo mês em que ele passou no vestibular). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Mônica deverá estar ganhando o seu oitavo prêmio Nobel.

Outra prova da parcialidade do autor está em (porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Mônica, que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta.

O que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda que o feminino é superior e o masculino, inferior. É sabido que em todas culturas e povos existentes o homem sempre oprimiu a mulher. Porém, isso não significa, em hipótese alguma, que estas sejam melhores que os homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o subjugado, os mesmos erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra. Por que? Ora, porque tanto homens quanto mulheres e colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E é aí que sempre morou o perigo. Não importa que seja Eduardo, Mônica ou até… Renato!

Não compartilho necessariamente da visão do texto acima… só achei-o interessante, e de fato vê uma música de que gosto muito sob uma ótica pra qual eu ainda não tinha atentado…

A propósito… achei-o aqui


30  03 2008

Eu, vovó e os óculos de sol

Há alguns dias vovó passou por uma cirurgia de catarata, e está em período de recuperação. Correu tudo bem tanto com o procedimento cirúrgico em si quanto com a recuperação inicial. O que, conhecendo-se o espírito irrequieto e personalidade forte da vovó, pode ser considerado sob todos os aspectos como um considerável progresso. Vínhamos conseguindo que ela se mantivesse na casa de uma tia, tranquila e atenta às recomendações médicas… Sabe, é aquele tipo de coisa simples de se seguir, como evitar os vapores vindos do fogão, movimentos bruscos de cabeça, focar lugares muito claros e mais outro tanto de estripolias que em geral nem se imagina mesmo que velhinhos façam. Vovó, evidentemente, já foi pega por várias vezes em frente ao fogão, já quis lavar roupas debaixo de sol a pino, e disse que não precisa mais ir ao médico fazer a revisão. Compramo-lhe uns óculos de sol que na verdade nem são mais tão necessários assim, mas… bom… já que ela não suporta usá-los, e eles lhe dão um certo ar de nobre comicidade, porque não mantê-los um pouco mais?

A questão é que tem sido realmente complicado mantê-la sob controle. Trata-se de velhinha que teve sempre sua liberdade, e apesar dos esforços que a família inteira tem feito (some-se a isto inclusive o valoroso grupo de agregados - namorados, amigos outros tantos que orbitam aleatoriamente a família e em geral vem e vão ao sabor do vento e dos relacionamentos) ela na maioria das vezes faz o que bem entende. No rol do que poderia ser considerado “fazer o que bem entende” está resolver sair da casa da tia sem maiores explicações e vir ficar comigo… E eis a situação atual: Ainda que relutantemente, vovó concordou em fazer algumas concessões (do uso dos óculos, apesar da pouca importância prática em sua recuperação, não abrimos mão), e tem até repousado bastante. Tenho feito minha parte e passado mais tempo com ela. O que tem sido, é bom que se diga, uma experiência interessante, já que me permite assimilar um pouco melhor trechos das histórias que ela já contou dezenas de vezes, mas que não haviam ainda ficado tão claros. Ainda ontem, quando acordei, escutei-a conversando. Era ainda muito cedo, e julguei que estivesse falando sozinha (é… ela tem feito isso às vezes), mas lá estava a namorada de meu irmão - a mais nova agregada - escutando-a monologar sobre qualquer coisa pitoresca de sua infância. Pois que seja ela a escutá-la… pelo menos pra ela é ainda novidade a história.

No meio da semana temos uma consulta de revisão já marcada com o médico da vovó. Como ela precisa operar os dois olhos, e até agora só fez cirurgia em um, é bem provável que tenhamos dentro em pouco mais um turbulento período de recuperação…


28  03 2008

Eu, vovó e as passistas

Vovó é uma octogenária daquele tipo durinho e reclamão de velhinha que cria problemas onde quer que vá. Já teve sua leva de atritos com motoristas de ônibus, feirantes, quitandeiros e todos os tipos de moleques do bairro onde mora. A todos, triunfante no meio de uma discussão, grita um “A mim ninguém faz de besta!!”, que quer tenha ela razão ou não, ganha todo o peso do misto de cumplicidade e respeito que geralmente suscita nas pessoas o dito de um idoso enraivecido e indignado em situações deste tipo. Resumindo: a minha avó é brigona, e gosta de ser assim… Faz questão de mostrar sua independência, e roda a cidade portando seu cartãozinho de gratuidade. Infelizmente, o peso dos anos parece estar lentamente lhe cobrando sua quota, o que explicaria o fato de ela perder-se outro dia próximo de casa, e também vir deixando pratos passarem do ponto com tanta regularidade ultimamente (os pratos, ela evidentemente nos faz comer… afinal, segundo suas próprias palavras, “só ‘pegou’ um pouquinho, meu filho… Mas está tão gostoso!”). Vovó faz sequilhos e sucos deliciosos, e é extremamente carinhosa com todos os netos - e até com os bisnetos também. Tem um daqueles rádios antigos cujo som rouco e enjoativo a surdez faz com que seja compartilhado com vários de seus vizinhos, geralmente sintonizado em violentos programas policiais (que ela adora dormir escutando).

Gosto muito de quando ela resolve vir aqui em casa. Sua chegada segue um ritual todo próprio. A começar pela campanhia, por exemplo… vovó tem o hábito de deixar o dedo na campanhia o tempo que dure a chegada de alguém à porta pra atendê-la (quer isso leve alguns segundos ou cinco minutos), o que faz com que às vezes até o filho do dono da mercearia do lado perceba sua chegada. Entra reclamando de que anda cansada e com dores (deixar de andar de ônibus pra todos os lados? nem pensar!!), e após uma sutil e quase imperceptível revista pela casa - com o intuito de certificar-se de que minha mãe esteja mantendo tudo de seu agrado, creio eu - vai com sua sacolinha pra cozinha. Seguimos, e ela começa a tirar as coisas que invariavelmente traz pra nós. Por mais rápida que seja sua vinda aqui, não lembro de algum dia ela haver deixado de trazer um mimo qualquer… um docinho… um pãozinho com queijo…

Vovó tem um hábito engraçado. Basta que sentemos em frente à tv pra assistir alguma coisa, e lá vem ela puxando papo. São monólogos interessantes, imagino, já que não presto mais muita atenção. As histórias são um tanto repetitivas, mas com alguns “hunrum” e um ou outro comentário de aquiescência consigo driblar a situação sem maiores problemas, e sem perder muito do que estiver assistindo. Com o Carnaval aproximando-se e o número de mulatas bundudas exibindo-se na tv aumentando consideravelmente (para meu deleite, e desespero de vovó), as coisas tomam outro rumo. São indignadíssimos seus protestos a cada vinheta de mulata que a Globo exibe. Acho que ela nem notou ainda que não é mais a Valéria Valensa balançando garbosamente comissão de frente e bateria na telinha, mas como o que vale é reclamar, lá vamos nós com um rosário de impropérios.

Sábado agora estávamos eu e vovó assistindo ao programa do Luciano Huck. Mais por inércia, na verdade… Eu, por pura falta do que fazer, ela por estar ali ao lado conversando comigo (tv ligada, eis a vovó na sala, conversando, etc), quando começou o que me pareceu ser um Concurso de Mulatas Bundudas. E se era realmente isso, nossa! Elas bem faziam jus à disputa!!! São o tipo de mulher do qual não se consegue tirar o olho nem que se queira! E, bom… a verdade é que eu NÃO QUERIA… Vovó, logo ali ao lado, vociferava de raiva: “Olha que descaramento! Imagina! A mulher está semi-nua! Imagina se cai aquele nada de roupa que ela está vestindo!!”. E eu, cá com meus botões, torcendo pra que isso realmente acontecesse, murmurava alguns “hums” de apoio. Estava mais do que claro que eu e vovó tínhamos pontos de vista ligeiramente diferentes no que diz respeito a mulheres semi-nuas aparecendo em vinhetas e programas de auditório de sábado à tarde. Mas preferi não deixar tão claras minhas preferências, pelo bem do bom convívio.

Mas seja como for, ficamos ambos por ali observando aquelas indecências até que terminou o concurso (infelizmente a menina pra quem eu torcia não ganhou… o que é uma pena, já que ela representava com galhardia minhas convicções do que deve mostrar uma boa escola de samba) e começou um velho filme policial, fazendo com que vovó rapidamente mudasse o foco de sua indignação da sem vergonhice das mulheres semi-nuas para a desnecessária violência gratuita mostrada na tv ultimamente.

Afinal, nos tempos dela…

Originalmente escrito em 23 de Janeiro de 2006


26  03 2008

As dunas do RN

“Porque as coisas tem de ser tão tristonhas em finais de tardes de domingo?”, é o que pensa consigo a menina Marina, enquanto olha distraída e sonhadoramente pela janela de seu quarto. “Sei lá… a impressão que dá é que se nos tiram os calendários, e que se por uma dessas loucuras que só acontecem em filmes simplesmente não soubéssemos mais dos dias da semana, nas tardes de domingo sempre saberíamos: Hoje definitivamente É domingo!”. E pronto… lá vai a Marina, viajando na maionese de novo!

O vento entra frio pela janela, e Marina olha a rua à frente… aliás, é mais um “pedacinho de rua” que propriamente uma rua o que Marina vê de sua janela. E se percebe sorrindo de leve, enquanto lembra de quando era mais nova, molequinha sapeca de sorriso fácil (e choro também!), que olhando dali mesmo costumava ver um pedaço tão maior destas mesmas ruas… destes mesmos telhados… e das dunas! Mas a mãe comentava sempre: “É o progresso, Marina! Dia desses constroem tanto aí em frente que nos tiram até a visão das dunas!” As belas dunas! Olhando um pouco mais à frente, lá estão… imponentes… enormes… O engraçado é que todo mundo fala que dunas movem-se todo o tempo… mas então porque a pequena Marina sempre as viu assim, como estão agora? Ou será que eram os olhos da memória lhe pregando peças? Será que eram eles, e não o progresso diminuindo o campo de visão das dunas, telhados e casas?

O frio aumenta, e Marina encosta um pouco a janela e volta pra cama. Acabara de sair do banho. Os cabelos molhados tem um aroma delicioso que impregna o travesseiro quando ela deita. Se a mãe a visse agora… “Sai daí menina, que molha todo o travesseiro!!”. Vários CDs jogados na cama, Marina pega um sem ao menos olhar. É do Jeff Buckley. Engraçado essas coisas, pensa. É só deixar a cargo do acaso que ele acaba fazendo a escolha certa! Vai o Jeff Buckley! Os pais estão lá fora assistindo tv (os Faustões, Gugus e similares, que proliferam-se como ratos aos domingos) e ela encosta a porta do quarto pra não incomodá-los. O som vem tranquilo, e ela fecha os olhos pra senti-lo melhor. Marina é uma menina sonhadora… tem belos cabelos pretos (agora cortados um pouco mais curtos que de costume), e um rosto extremamente agradável… daqueles de menina cheia de ternura em que o tempo, se não esqueceu de vir tirar as marcas da criança e deixar as da mulher, fez uma intrigante mistura das duas. É isso… quando se olha pra Marina, a impressão que se tem é de que é um rostinho saído das tirinhas da Mônica! Uma personagem de tirinhas da Mônica vestida com camiseta do Led Zeppelin, jeans desbotado e pulseirinhas de miçangas nos braços.

Marina anda entusiasmada com o livro que começou a ler… é um universo totalmente novo, extremamente tátil, cheio de nuances, repleto de referências e detalhes de um mundo que é inteiro de melancolia. E aos poucos ela percebe como isto influencia sua morenice brejeira, já tão criativa por natureza. E nota que tem sido mais fácil escrever desde então. Sim… Marina tem o dom da poesia e da prosa… e é uma poesia toda própria, com doses disto e daquilo, que justamente por não terem as proporções exatas dos compostos com os quais acostumara-se a lidar, soa tão visceral. É… num desses desvios de tudo que é natural e lógico, nossa menina Marina foi achar de meter-se com pipetas, beckers, tubos de ensaio e mais outros tantos vidrinhos, líquidos coloridos e pozinhos idem aos quais dedicam-se os alquimistas modernos perdidos na assepsia sem graça dos laboratórios do mundo. E nessa hora, imaginando a personagem da turma da Mônica metida num jaleco dentro dum laboratório qualquer fazendo sabe-se lá que experimento, Marina sorri novamente. “Química… nossa! Que poesia pode haver na Química? Será que pode?”. E lá vai Marina, a viagem e a maiosene!! E haja maionese!

“Ei Marina, começou o Big Brother! Vem ver não, minha filha?”. É a mãe da Marina, bem na hora em que ela já sonhava em ir embora pra Bahia morar numa aldeota qualquer na beira da praia, vivendo de artesanato, poesia, música e amor. Não… nos sonhos da Marina não tem espaço algum pra laboratórios, mestrados ou tubos de ensaios… que fique pra outros a responsabilidade de descobrir fórmulas mágicas… Mas agora já é quase-segunda-feira… só resta o Big Brother e a esperança de que haja mesmo a praia paradisíaca perdida na Bahia esperando por ela, a menina Marina, e toda a maionese em que ela possa viajar.

Pra Marina Rabelo, uma menina morena de quem gosto demais da conta.

O texto foi escrito originalmente em 15.01.2006


25  03 2008

A trilha sonora da tua vida

Você entra em casa, e teu dia foi cheio e intenso. E aqui a palavra “intenso” está sendo usada em seu sentido mais negativo. Joga tuas coisas no primeiro móvel que te aparece pela frente, e ainda assim continua sentindo em si o peso do mundo inteiro. E toma um copo d’água, e o peso não vai embora… nem teu quarto - pedacinho de paraíso na Terra, onde você conhece cada palmo - te traz alento. Mas é pra onde você vai. Desliga as luzes, e vestido como chegou da rua, larga-se na cama. Agora, na escuridão de teu mundo, é como se só existissem você e quaisquer que sejam os teus demônios. Há um ventilador logo ali… você só tem de levantar-se e ligá-lo. Mas os demônios que o atormentam não seriam dignos do nome se te permitissem este pequeno prazer… e cá está você, rendido à própria inércia… Já o som… bom, o som é diferente… ele está logo ali, a um estirar de braço. Você o liga, e nota com olhar vazio a dança das luzinhas coloridas, prenunciando o que está por vir. E que vem… devagarinho, de início sussurado, mas num crescendo constante, em que o sussurro se torna em grito, e depois em lamento triste e sentido. E é neste momento que tua vida vira toda ela Janis Joplin, e o barulho gutural vai tomando conta, e você vai entorpecendo-se devagar, e tem vontade de beber alguma coisa. E depois vem o blues… a melodia negra sofrida e triste. A vida começa a parecer um pouquinho menos fodida, e quando você nota, as lágrimas já escorriam há tempo por teu rosto. Pois é… pelo menos por esta noite você conseguiu exorcizar teus demônios…

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E lá está você, de frente pro rosto daquela que foi sempre a mulher de tua vida. A “mulher da vida de alguém” parece a coisa mais datada e piegas do mundo, e é exatamente o que você pensa enquanto o início de sorrisinho sarcástico começa a aparecer em teu rosto pragmático ao vê-la aproximando-se. E daí o turbilhão de emoções passa por tua cabeça é tão grande e tão inesperado que você não sabe bem o que dizer. Não depois de tantos anos. E gagueja… Gagueja?? Droga… Enquanto conversam, com toda a aura de aparente tranquilidade ao redor de vocês (e que você nem sabe bem porque te remete à imagem de um conto que leu, que tinha um lago com calmaria na superfície, mas cheio de turbulência na parte mais profunda), você vai lembrando de cada pequeno detalhe do jeito como a conheceu… a primeira vez em que teve coragem suficiente pra se assumir encantado de verdade por alguém, numa relação cujas bases de sustentação te eram de natureza completamente nova. Enquanto conversam você também observa o par de olhos enormes e melancólicos, e comporta-se como um adolescente nervoso e vacilante. Afinal, é a mulher da tua vida… e são as memórias das músicas que tocavam sempre que você pensava nela que te levam aos solos rápidos e harmoniosos de Dire Straits, com a voz grave do Mark Knopfler, ou à calorosa música do Gonzaguinha.

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4 da manhã. Você já está tão alcoolizado que até os movimentos mais simples como um aceno de mão estão comprometidos. O boteco é o pior pé-sujo que teus amigos conseguiram encontrar, e a forma como é decorado é de gosto extremamente duvidoso. Tem o colorido forte que provavelmente teria um cabaré imaginado pelo Almodóvar, com pinturas e bibelôs espalhados por todos os cantos, que oscilam entre a beleza simples da cultura peruana e a ostentação excessiva da decoração pretensiosa demais. A noite foi comprida e agitada, e vocês dividem espaço com os primeiros trabalhadores que começam a chegar e pedem seus cafés fortes e quentes, com os quais conseguem suportar uma manhã inteira de lida. Chega o prato de feijoada, tão quente que se forma uma cortina de fumaça na atmosfera já pesada, com o cheiro característico de cigarro e perfume baratos. A comida é gordurosa demais, mas extremamente saborosa… e você se pega pensando em que colocação poria aquelas pessoas numa escala imaginária de cuidados com o colesterol. E ali tem tudo o que você gosta. Feijão, cheiro de café, toalhas de pano quadiculadas, cerveja gelada e a sensação de vista nublada que vai precedendo lentamente o adormecer quando se está bêbado. E nesta hora sua vida é toda o som repetitivo dos lambadões agudos demais, ou dos boleros dramáticos e chorosos. Nesta hora, e levado por esta ambientação, você percebe quão importante é a Celia Cruz e toda a música cubana e caribenha na tua vida.

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E no final das contas você pensa… Quer saber? Se existe um deus, que ele seja música.. e que nos encante e abençoe em forma de melodia, porque é das poucas coisas que valém à pena nessa vida sem graça.
Amém.

O texto foi escrito originalmente em 22.08.2006


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