
Amélie Poulain é um filme delicioso… Tudo nele é sutil e colorido… Do mundo interior da própria Amélie, tão criativo e cheio de possibilidades com o qual nós, expectadores, tomamos contato por meio do interessante recurso de colagem de imagens e cenas soltas ao mundo exterior, tão interessante quanto o primeiro… Ou talvez tornado interessante porque filtrado pelos sensíveis olhos de Amélie. Aliás, é muito legal o modo como as diferenças sutis de cores nos levam a diferenciar de modo natural ao longo do filme os mundos da menina.
Amélie é uma jovem tímida que cresceu afastada do convívio com outras crianças de sua idade devido ao erro que seu pai, médico, cometeu ao imaginar que as batidas aceleradas de seu coração em suas consultas mensais fossem devidas a algum tipo de disfunção cardíaca, quando na verdade o coração da menina acelerava-se somente por conta do nervosismo e agitação causados pela presença dele. Enfim, esta decisão de mantê-la em casa aprendendo com a mãe ao invés de ir ao colégio acabou por ter influência decisiva em sua vida futura, ainda mais quando considerado seu temperamento já naturalmente introspectivo e criativo. Estavam formadas as bases do fabuloso mundo de Amélie, e é assim, ao encontrar uma pequena caixa de brinquedos escondida em seu apartamento pelo morador anterior, que ela começa sua cruzada de boas ações bairro afora… pequenas gentilezas (ou ‘estratagemas’, como ela mesma prefere) com as pessoas que vai conhecendo, como o vendedor meio ‘devagar’ da mercearia, sua vizinha desiludida com o amor, o vizinho que não sai de casa há anos devido a uma doença, a amiga da tabacaria da lanchonete em que trabalha ou mesmo seu primeiro amor, um sujeito comum que trabalha num sex-shop e que também tem lá suas esquisitices.
O filme tem um lirismo todo próprio e o elenco foi muito bem escolhido, já que é meio como se os atores vestissem os temperamentos dos personagens que interpretam. Os olhos e a boca da Audrey Tautou, por exemplo. Eles transpiram a bondade, timidez e gentileza que Amélie Poulain inspira em quem a vê. O namorado ciumento da moça da tabacaria… suas caras, bocas e trejeitos são excelentes! Outro detalhe que chama a atenção é a trilha sonora. É delicioso escutar aquele acordeão, que de tão “francês” dá a impressão de que se fechamos os olhos conseguimos ver as ruelas apertadas e pontes de Paris (ou pelo menos a idéia que inconscientemente fazemos disto tudo), com seus cafés e garçons mal-humorados a caráter.
Enfim, Amélie Poulain é um daqueles filmes leves, tranquilos e despretensiosos, pra se ver comendo pipoca no sofá da sala num sábado à tarde enquanto se faz distraidamente carinho em alguém de quem se gosta.
Sites interessantes:
Amélie Poulain no Amazon.com (é possível escutar trechos da trilha sonora)
Um bom primeiro de maio para todos nós, que com o suor de nossos rostos e a dignidade de nossa lida diária damos nossa parcela de contribuição para a construção de um mundo onde valha à pena viver.
(ou não…)
Acabo de assistir a um documentário sobre a vida e a obra daquele que é a meu ver um dos maiores compositores da música brasileira de todos os tempos: Cartola. Terminado o programa, fiquei com um misto de sensações as mais desencontradas, das quais duas eram mais marcantes… a primeira, uma vontade quase incontrolável de sair cantarolando/assobiando as letras daqueles sambinhas que fascinam tanto pela simplicidade das letras quanto por sua temática tão diversificada e abrangente (obviamente não levei o tal cantarolar a termo, já que havia gente em casa e a idéia de eu sair pela sala cantando em falsete não atestaria positivamente pela minha natural sobriedade).
Já a segunda sensação, esta um pouco mais ampla, tem a ver com minhas impressões sobre o que vem acontecendo à música brasileira de forma geral. Ainda com a mente ruminando a história de Cartola, brasileiro pobre, negro, mal-nascido e teoricamente sem perspectivas de ascenção, me peguei pensando em como um semi-analfabeto podia escrever tão bem. É impressionante, por exemplo, a correção gramatical constante em todas as letras, não só de Cartola, mas de todos os sambistas da época. E que dizer da poesia simples, de temática popular, inserida em melodias tão bem elaboradas e arranjadas? E pensar que, segundo o próprio documentário, a inspiração daquelas pessoas surgia assim, numa mesa de bar, com a facilidade com que se pedia outra cerveja. E é quando comparo esta criatividade iluminada com o que é produzido atualmente que me decepciono… Cartola e os demais sambistas de sua época traziam em si a nobreza cheia de dignidade do samba… basta ver o porte daqueles homens para perceber isto. O que acontece se compararmos aos atuais expoentes da música carioca? O cantor do Créu? O Bonde do Tigrão? Não dá pra ter um parâmetro mínimo de comparação… Baseado no raciocínio de que compositores de música popular são a expressão maior do que vai pelo imaginário das pessoas, será que o nível de cultura popular desceu tanto assim? Será que as antológicas reuniões nos barzinhos, transpirando cultura e boa música dos mais diversos estilos tem hoje por equivalentes os bailes funk e os tiroteios de finais de semana?
Cartola e sua geração de sambistas tem influência tão importante no cenário musical (e mesmo cultural) brasileiro quanto qualquer dos outros movimentos menos marginalizados socialmente, como a bossa nova ou o tropicalismo. E me arrisco mesmo a afirmar que daqui a 100 anos esta influência continuará tão forte quanto é hoje. Daí me pego pensando… definitivamente não dá pra dizer a mesma coisa de um ritmo musical cuja pobreza de estilo se vale de artifícios outros que não o mérito da própria música para chamar a atenção de quem escuta. Não é à toa que as bundas das meninas que dançam estão em clara proporção inversa à riqueza musical dos grupos em que fazem suas ‘performances’…
A constituição garante o direito de ir e vir. Em tese, cada um pode ir e vir sem dar satisfações tanto no ir como no vir. Mas naquele bairro nada era tão simples. Às vezes você estava indo ou vindo e… um camburão estacionava do teu lado.
- Parado aí.
Estacionar é apenas um modo de se referir a uma coisa que pára. Aquelas D20 haviam rodado mais de quinhentos mil quilômetros atrás de putas, assassinos, inocentes e, quando encostavam, podia-se ouvir o grito desesperado de todas as almas perdidas que os “homens” haviam ajudado a chegar ao inferno.
Ergui as mãos imediatamente. Minha mãe disse que já possuia essa reação instintiva no berço. Culpa genética? Vergonha? Terror?
- Bom garoto…
- A gente se acostuma.
- O que? Será que a gente se conhece?
- Acho que não.
- Deixa eu ver você direitinho.
Chegou às minhas costas. Passou a mão na minha bunda.
- Hum… acho que já te conheço.
- Deve ser engano.
- Eu me engano, Waldemar?
Outra voz soou dentro da viatura:
- Não lembro disso ter acontecido, Dirceu.
E se a gente passasse um rádio pra saber desse rapaz?
Meus ombros começaram a doer. Tremiam também. Não era só cansaço.
- Posso baixar o braço?
- Tá com pressa?
- Não, eu…
- Sabe Waldemar, eu não vou encher o saco do pessoal da Central. Vamos deixar eles dormirem essa noite. O menino aqui parece de bem. Você é de bem?
- Acho que sim.
- Não tem certeza?
- É… bom… eu trabalho.
- Então vamos ver a profissional…
Tornou a passar a mão na minha bunda. Pegou a carteira de dinheiro.
Hei, essa não é a carteira de trabalho! - Quem trabalha ganha, é ou não é?
- Nem sempre.
Olha só Waldemar, é um revoltado.
- Pô Dirceu, esses revoltados vivem dando trabalho pra gente.
- Nem diga, Waldemar, nem diga…
Ouvi o policial fuçando nas minhas coisas.
- O cara só anda com dez?!
- O que ele faz? Tem cara de malaco. Procura que tem coisa.
- Acho que não… Mas vamos ver o que ele tem feito.
Enquanto Dirceu abria minha carteira, pensei que um registro mais duradouro me salvaria daquela situação, mas não tinha nada mais duradouro pra oferecer além das minhas dívidas.
- Nossa, Waldemar!
- Que é, Dirceu?
- O moleque não para num emprego!
- Um vagabundo, hein?
- O desemprego tá fogo, eu…
- Puxa carro? Acho que você trafica um papelzinho?
- Não, eu…
- Vem.
Dirceu abriu a porta detrás do camburão. Não foi dessa vez que eu pude ver a cara dele. Do Waldemar ei desviei, seguindo pro chiqueirinho cabisbaixo. Esperava causar boa impressão. Talvez eles pudessem desistir. Não desistiram.
Muitas emanações diabólicas saiam daquele carro, especialmente ali, onde iam os desgraçados. Basicamente a coisa se compunha de vômito, urina e merda. Devia haver sangue também, daí um resquício doce no ar.
- Entra.
Dirceu fechou a porta. A luz entrava quadriculada, por causa de uma rede de ferro por cima dos vidros. No momento falar em “medo” seria pouco. Entrar naquele porta-miserável era ganhar cinqüenta por cento num concurso de morte certa. Mas eu não ia morrer instantaneamente. Antes aqueles caras se divertiriam um bocado. O modo como arrancaram deu bem a medida de como sabiam machucar um sujeito sem se aproximar dele, usando apenas a lataria como arma. Bati as costas, tentei me equilibrar, bati o rosto. Começou a sangrar. Evitei encostar onde quer que fosse, podia pegar alguma doença venérea (ou algo mais mortal).
Tentava enxergar entre a malha do ferro, mas era impossível. Só ganhei mais uns galos na testa. Tinha a vaga impressão que rumávamos pra lugares cada vez mais ermos. Apartamentos eram substituídos por casas, casas eram substituídas por indústrias, indústrias por terrenos baldios e, por fim, os terrenos baldios pela vasta terra de ninguém dos confins da periferia paulistana.
De repente paramos. Entre o nada e o coisa alguma. Portas abriram lá na frente. Depois a do chiqueiro. Vi a cara dos dois. Nada demais. A mesma burrice de cada um, só que dotada de alguma autoridade.
- Desce.
Desci, claro.
- Vira de costas.
Virei, óbvio.
- Toma o que é teu.
Esperei um tiro na nuca, mas estavam passando minha carteira. Não conferi.
- O que é que te aconteceu?
- Eu?
- Tem mais cego aqui?
- Não vi nada. O senhor mesmo tá dizendo que eu sou cego.
- Conta até cem.
- Um… dois… três…
Ouvi portas baterem.
- Quatro… cinco… seis… Ia sobreviver?
Ouvi o carro se afastando.
- Sete… oito… nove…
Virei.
- Dez…
Estava sozinho. Um pouco pra lá da casa do cacete. Só então abri a carteira. Ainda tinha um passe. E uma nota de um, benta, que a minha avó obrigava todos da família a carregar. Comecei a voltar. Uma placa anunciava Osasco dali a doze quilômetros. Amanhecia. Estava vivo. Não parecia, necessariamente, um mal sinal. Continuei andando. Sabia que ia andar muito… mas, será que na droga de um dia eu ia chegar à porra de algum lugar?
Achei este texto por acaso num antigo site meu… Li alguns poucos contos soltos do Fernando Bonassi, e devo dizer que gosto demais desta literatura de períodos curtos, diálogos mais ainda, que falam de um dia-a-dia urbano pulsante e pleno de vida.
Ah… Sabe-se lá porque, sempre que o leio penso todo o tempo nas antigas viaturas de polícia daqui de Salvador…
Uma amiga comentou que havia feito um tipo de teste de personalidade e me passou o link. Eu costumo fazer coisas assim levado pelo mesmo tipo de curiosidade indiferente que me faz parar numa praça e me deixar levar pelos truques mágicos ou habilidades acrobáticas do artista… Seja como for, resolvi fazer o tal teste, e descobri que, segundo os autores, eu teria um tipo de personalidade visionária, ou qualquer coisa que o valha.. hmm… Será?
Tá… hoje nem é sexta-feira… mas e daí? É uma das músicas favoritas de uma das bandas tristes de que mais gosto… Essa coisa das possibilidades de um final de tarde / início de noite de uma sexta-feira quando se está amando é encandadora.
I don’t care if Monday’s blue
Tuesday’s grey and Wednesday too
Thursday I don’t care about you
it’s Friday I’m in love
Monday you can fall apart
Tuesday Wednesday break my heart
Thursday doesn’t even start
it’s Friday I’m in love
Saturday wait
and Sunday always comes too late
but Friday never hesitate
I don’t care if Monday’s black
Tuesday Wednesday heart attack
Thursday never looking back
it’s Friday I’m in love
Monday you can hold your head
Tuesday Wednesday stay in bed
Oh Thursday watch the walls instead
it’s Friday I’m in love
Saturday wait
and Sunday always comes too late
but Friday never hesitate
dressed up to the eyes
it’s a wonderful surprise
to see your shoes and your spirits rise
throwing out your frown
and just smiling at the sound
and as sleek as a shriek
spinning round and round
always take a big bite
it’s such a gorgeous sight
to see you eat in the middle of the night
you can never get enough
enough of this stuff
it’s Friday
I’m in love