Religião não define caráter

Li hoje em ATARDE matéria sobre a recusa de uma empresa de publicidade de Salvador de, mesmo após assinado contrato, divulgar o material de uma campanha publicitária patrocinada pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos e que seria veiculado por um mês nos ônibus da cidade. A alegação do gerente da dita empresa é de que a veiculação do material seria uma clara ofensa religiosa.

Somente para contextualizar, a campanha já existe e os anúncios vem sendo veiculados em alguns países da Europa (os que tenho notícia são Inglaterra e Espanha) e nos Estados Unidos. Trata-se de várias frases de efeito do tipo:

There’s probably no god. Now stop worrying and enjoy your life.

(que eu traduziria como: “Provavelmente não existe deus algum. Então pare de se preocupar e vá curtir sua vida.”)

Parece ser o tipo de coisa que ofenda mesmo o mais sensível e abnegado dentre os religiosos? Ela tem, a meu ver, muito do caráter (com o perdão do trocadilho) espirituoso e blasé que caracteriza boa parte dos ateus. Aliás, é bom que se destaque que provavelmente esta postura de certa indiferença diante das possíveis (des)crenças dos que o cercam é uma das poucas atitudes que unem os que se dizem descrentes, já que não há uma “forma de pensar atéia”, ou quaisquer tipos de regras a serem seguidas a fim de que alguém possa se autodenominar ateu (a não ser pela óbvia descrença na existência de um deus, ou inteligência maior, ou o-que-quer-que-seja-onipresente-ciente-e-potente).

Apesar do aparente balaio de gatos que resultaria de se tentar juntar pessoas que justamente por sua característica de prezar o livre pensar tendem a certo individualismo, há pelo mundo afora grupos os mais diversos de ateus. Inclua-se aí desde setores mais moderados, para os quais é importante que haja fóruns de discussão bem estabelecidos para os principais temas relevantes para os descrentes, e que mantém uma boa relação com religiosos, até os mais radicais, como um grupo texano  (vale lembrar que o Texas e um dos estados mais conservadores dos EUA) que é conhecido pelos discursos inflamados e a oposição direta aos grupos religiosos de lá.

Particularmente, penso que as religiões são um fardo que a humanidade vem carregando, que dificultam sua elevação cultural com suas velhas amarras de pode x não pode, regras tolas baseadas num tradicionalismo que não se sustenta frente uma boa discussão filosófica e intolerância. Não é preciso muito mais que pegar um livro de história e dar uma rápida lida nos capítulos referentes à Idade Média para se ter uma idéia do mal que o catolicismo e seu obscurantismo fez (e ainda faz) para o mundo. E o que dizer do islamismo e a intolerância machista e violenta que invariavelmente cerca seus gestos? Gente como aquela derruba aviões em prédios públicos entupidos – aviões e prédios – de inocentes. E não serve como desculpa alegar que se tratava de um ato isolado de um grupo de loucos. É que é grande demais o número de casos de pessoas que estouram-se a si mesmas em troca de virgens e levados por crenças religiosas para que se possa atribui-los a situações pontuais…

Crer ou não em deus é outra história. Que cada um creia no que bem entenda. A mim importa muito pouco o que as pessoas a meu redor pensam sobre deuses, julgamentos finais, vida após morte, karma ou o que seja. Não tenho a resposta para nada disto, não levanto bandeira alguma, mas tenho a meu favor a integridade da postura que vem do questionamento sincero, que com o tempo vai invariavelmente me conduzir à verdade (ou o mais perto dela que eu conseguir chegar). O importante aí é que o Estado não se interponha nesta esfera de discussão, e que seja garantido a todo mundo o direito do livre pensar. O que já vem me preocupando desde alguns anos – e acho que é mais ou menos o que também preocupa a essas associações atéias que vem surgindo tão frequentemente na América Latina – é a pressão enorme que esses religiosos vem fazendo nos últimos tempos. Eles são maioria; ocupam cada vez mais posições chave dentro da política e das mídias de comunicação, e deturpam e entravam o bom debate com esse monte de idéias pré-concebidas e cheias de preconceito (haja vista o sr. Datena e as bobagens intolerantes, preconceituosas e totalmente desinformadas que falou há algumas semanas em seu programa aqui e aqui).

É que valores morais e correção de caráter transcendem deus no coração, ao contrário do que o sr. Datena e tantos outros hipócritas do mesmo naipe fazem crer.

P.S. A campanha é válida, a meu ver. Peca entretanto pelo choque inicial que provoca. Creio que alcançaria os mesmos resultados se as comparações feitas nos busdoors fossem entre indivíduos de mesma índole, separados tão somente por crenças. Por que não, por exemplo, compara um bom estadista ateu com outro bom estadista religioso, ao invés de comparar Chaplin (ateu) a Hitler (supostamente crente)?

2 Comments to “Religião não define caráter”

  1. Marcus Gomes disse:

    Meu amigo Léo, que bom te ver por aqui (ainda que anualmente)…

    Certa feita, perdendo meu tempo discutindo religião com um crente, ouvi dele: “se não existisse Deus, para que as pessoas seriam boas?”

    Nem preciso comentar que essa lógica – que pertence a muita gente – é um dos tantos argumentos religiosos para defender a existência de deus. Eu sempre digo que a bondade deve vir antes de qualquer crença ou valor. Só quando se é bom por natureza é que se pode escolher ou não seguir qualquer cultura, regilião, blá blá blá.

    Sejamos bons. E fim.

  2. Não tenho muito a acrescentar, senão que também me preocupa.
    As posições chave dentro da política e da mídia resultam em, e são resultado de, dinheiro. Dinheiro é mais poder, além do fascínio que é a carta na manga original dessa turma.
    Poder para intolerância e preconceito é bastante preocupante.

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