Cartola e o Créu
Acabo de assistir a um documentário sobre a vida e a obra daquele que é a meu ver um dos maiores compositores da música brasileira de todos os tempos: Cartola. Terminado o programa, fiquei com um misto de sensações as mais desencontradas, das quais duas eram mais marcantes… a primeira, uma vontade quase incontrolável de sair cantarolando/assobiando as letras daqueles sambinhas que fascinam tanto pela simplicidade das letras quanto por sua temática tão diversificada e abrangente (obviamente não levei o tal cantarolar a termo, já que havia gente em casa e a idéia de eu sair pela sala cantando em falsete não atestaria positivamente pela minha natural sobriedade).
Já a segunda sensação, esta um pouco mais ampla, tem a ver com minhas impressões sobre o que vem acontecendo à música brasileira de forma geral. Ainda com a mente ruminando a história de Cartola, brasileiro pobre, negro, mal-nascido e teoricamente sem perspectivas de ascenção, me peguei pensando em como um semi-analfabeto podia escrever tão bem. É impressionante, por exemplo, a correção gramatical constante em todas as letras, não só de Cartola, mas de todos os sambistas da época. E que dizer da poesia simples, de temática popular, inserida em melodias tão bem elaboradas e arranjadas? E pensar que, segundo o próprio documentário, a inspiração daquelas pessoas surgia assim, numa mesa de bar, com a facilidade com que se pedia outra cerveja. E é quando comparo esta criatividade iluminada com o que é produzido atualmente que me decepciono… Cartola e os demais sambistas de sua época traziam em si a nobreza cheia de dignidade do samba… basta ver o porte daqueles homens para perceber isto. O que acontece se compararmos aos atuais expoentes da música carioca? O cantor do Créu? O Bonde do Tigrão? Não dá pra ter um parâmetro mínimo de comparação… Baseado no raciocínio de que compositores de música popular são a expressão maior do que vai pelo imaginário das pessoas, será que o nível de cultura popular desceu tanto assim? Será que as antológicas reuniões nos barzinhos, transpirando cultura e boa música dos mais diversos estilos tem hoje por equivalentes os bailes funk e os tiroteios de finais de semana?
Cartola e sua geração de sambistas tem influência tão importante no cenário musical (e mesmo cultural) brasileiro quanto qualquer dos outros movimentos menos marginalizados socialmente, como a bossa nova ou o tropicalismo. E me arrisco mesmo a afirmar que daqui a 100 anos esta influência continuará tão forte quanto é hoje. Daí me pego pensando… definitivamente não dá pra dizer a mesma coisa de um ritmo musical cuja pobreza de estilo se vale de artifícios outros que não o mérito da própria música para chamar a atenção de quem escuta. Não é à toa que as bundas das meninas que dançam estão em clara proporção inversa à riqueza musical dos grupos em que fazem suas ‘performances’…
Menino, eu concordo com você numa coisa, hoje em dia não se tem mais aquela cultura que antigamente era marcante nas letras musicais.
O povo brasileiro gosta de dançar e em hoje em dia a moda é esse gingado - se é que podemos assim chamar esse requebra-quebra - que nos remete a esse tipo de música feito Créu.
Eu adoro dançar, não tenho técnica alguma mas arrisco de tudo um pouco, também não discrimino esse ritmo Creu, todavia, o conteúdo (qual?) da letra é de doer na alma…
Mas… alguém faz uma música assim, alguém a reproduz e o povo compra, falar o quê? É capaz de me dizerem que gosto é gosto e não se discute, e de fato é, porém, com determinados gostos nossas raízes culturais vão por água abaixo… bjs da Angel