o quebra… o bate… o cospe… o maltrata…

Aquela coisa de sempre… música… poesia… bebida… mulheres… tecnologia… enfim… os motores do mundo.

29  04 2008

Cartola e o Créu

Acabo de assistir a um documentário sobre a vida e a obra daquele que é a meu ver um dos maiores compositores da música brasileira de todos os tempos: Cartola. Terminado o programa, fiquei com um misto de sensações as mais desencontradas, das quais duas eram mais marcantes… a primeira, uma vontade quase incontrolável de sair cantarolando/assobiando as letras daqueles sambinhas que fascinam tanto pela simplicidade das letras quanto por sua temática tão diversificada e abrangente (obviamente não levei o tal cantarolar a termo, já que havia gente em casa e a idéia de eu sair pela sala cantando em falsete não atestaria positivamente pela minha natural sobriedade).

Já a segunda sensação, esta um pouco mais ampla, tem a ver com minhas impressões sobre o que vem acontecendo à música brasileira de forma geral. Ainda com a mente ruminando a história de Cartola, brasileiro pobre, negro, mal-nascido e teoricamente sem perspectivas de ascenção, me peguei pensando em como um semi-analfabeto podia escrever tão bem. É impressionante, por exemplo, a correção gramatical constante em todas as letras, não só de Cartola, mas de todos os sambistas da época. E que dizer da poesia simples, de temática popular, inserida em melodias tão bem elaboradas e arranjadas? E pensar que, segundo o próprio documentário, a inspiração daquelas pessoas surgia assim, numa mesa de bar, com a facilidade com que se pedia outra cerveja. E é quando comparo esta criatividade iluminada com o que é produzido atualmente que me decepciono… Cartola e os demais sambistas de sua época traziam em si a nobreza cheia de dignidade do samba… basta ver o porte daqueles homens para perceber isto. O que acontece se compararmos aos atuais expoentes da música carioca? O cantor do Créu? O Bonde do Tigrão? Não dá pra ter um parâmetro mínimo de comparação… Baseado no raciocínio de que compositores de música popular são a expressão maior do que vai pelo imaginário das pessoas, será que o nível de cultura popular desceu tanto assim? Será que as antológicas reuniões nos barzinhos, transpirando cultura e boa música dos mais diversos estilos tem hoje por equivalentes os bailes funk e os tiroteios de finais de semana?

Cartola e sua geração de sambistas tem influência tão importante no cenário musical (e mesmo cultural) brasileiro quanto qualquer dos outros movimentos menos marginalizados socialmente, como a bossa nova ou o tropicalismo. E me arrisco mesmo a afirmar que daqui a 100 anos esta influência continuará tão forte quanto é hoje. Daí me pego pensando… definitivamente não dá pra dizer a mesma coisa de um ritmo musical cuja pobreza de estilo se vale de artifícios outros que não o mérito da própria música para chamar a atenção de quem escuta. Não é à toa que as bundas das meninas que dançam estão em clara proporção inversa à riqueza musical dos grupos em que fazem suas ‘performances’…


One Response to “Cartola e o Créu”

  1. Menino, eu concordo com você numa coisa, hoje em dia não se tem mais aquela cultura que antigamente era marcante nas letras musicais.

    O povo brasileiro gosta de dançar e em hoje em dia a moda é esse gingado - se é que podemos assim chamar esse requebra-quebra - que nos remete a esse tipo de música feito Créu.

    Eu adoro dançar, não tenho técnica alguma mas arrisco de tudo um pouco, também não discrimino esse ritmo Creu, todavia, o conteúdo (qual?) da letra é de doer na alma…

    Mas… alguém faz uma música assim, alguém a reproduz e o povo compra, falar o quê? É capaz de me dizerem que gosto é gosto e não se discute, e de fato é, porém, com determinados gostos nossas raízes culturais vão por água abaixo… bjs da Angel

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