o quebra… o bate… o cospe… o maltrata…

Aquela coisa de sempre… música… poesia… bebida… mulheres… tecnologia… enfim… os motores do mundo.

25  04 2008

Causo de Polícia

A constituição garante o direito de ir e vir. Em tese, cada um pode ir e vir sem dar satisfações tanto no ir como no vir. Mas naquele bairro nada era tão simples. Às vezes você estava indo ou vindo e… um camburão estacionava do teu lado.

- Parado aí.

Estacionar é apenas um modo de se referir a uma coisa que pára. Aquelas D20 haviam rodado mais de quinhentos mil quilômetros atrás de putas, assassinos, inocentes e, quando encostavam, podia-se ouvir o grito desesperado de todas as almas perdidas que os “homens” haviam ajudado a chegar ao inferno.
Ergui as mãos imediatamente. Minha mãe disse que já possuia essa reação instintiva no berço. Culpa genética? Vergonha? Terror?

- Bom garoto…
- A gente se acostuma.
- O que? Será que a gente se conhece?
- Acho que não.
- Deixa eu ver você direitinho.

Chegou às minhas costas. Passou a mão na minha bunda.

- Hum… acho que já te conheço.
- Deve ser engano.
- Eu me engano, Waldemar?

Outra voz soou dentro da viatura:

- Não lembro disso ter acontecido, Dirceu.

E se a gente passasse um rádio pra saber desse rapaz?
Meus ombros começaram a doer. Tremiam também. Não era só cansaço.

- Posso baixar o braço?
- Tá com pressa?
- Não, eu…
- Sabe Waldemar, eu não vou encher o saco do pessoal da Central. Vamos deixar eles dormirem essa noite. O menino aqui parece de bem. Você é de bem?
- Acho que sim.
- Não tem certeza?
- É… bom… eu trabalho.
- Então vamos ver a profissional…

Tornou a passar a mão na minha bunda. Pegou a carteira de dinheiro.
Hei, essa não é a carteira de trabalho! - Quem trabalha ganha, é ou não é?

- Nem sempre.
Olha só Waldemar, é um revoltado.
- Pô Dirceu, esses revoltados vivem dando trabalho pra gente.
- Nem diga, Waldemar, nem diga…
Ouvi o policial fuçando nas minhas coisas.
- O cara só anda com dez?!

- O que ele faz? Tem cara de malaco. Procura que tem coisa.

- Acho que não… Mas vamos ver o que ele tem feito.

Enquanto Dirceu abria minha carteira, pensei que um registro mais duradouro me salvaria daquela situação, mas não tinha nada mais duradouro pra oferecer além das minhas dívidas.

- Nossa, Waldemar!
- Que é, Dirceu?
- O moleque não para num emprego!
- Um vagabundo, hein?
- O desemprego tá fogo, eu…
- Puxa carro? Acho que você trafica um papelzinho?
- Não, eu…
- Vem.

Dirceu abriu a porta detrás do camburão. Não foi dessa vez que eu pude ver a cara dele. Do Waldemar ei desviei, seguindo pro chiqueirinho cabisbaixo. Esperava causar boa impressão. Talvez eles pudessem desistir. Não desistiram.
Muitas emanações diabólicas saiam daquele carro, especialmente ali, onde iam os desgraçados. Basicamente a coisa se compunha de vômito, urina e merda. Devia haver sangue também, daí um resquício doce no ar.
- Entra.

Dirceu fechou a porta. A luz entrava quadriculada, por causa de uma rede de ferro por cima dos vidros. No momento falar em “medo” seria pouco. Entrar naquele porta-miserável era ganhar cinqüenta por cento num concurso de morte certa. Mas eu não ia morrer instantaneamente. Antes aqueles caras se divertiriam um bocado. O modo como arrancaram deu bem a medida de como sabiam machucar um sujeito sem se aproximar dele, usando apenas a lataria como arma. Bati as costas, tentei me equilibrar, bati o rosto. Começou a sangrar. Evitei encostar onde quer que fosse, podia pegar alguma doença venérea (ou algo mais mortal).
Tentava enxergar entre a malha do ferro, mas era impossível. Só ganhei mais uns galos na testa. Tinha a vaga impressão que rumávamos pra lugares cada vez mais ermos. Apartamentos eram substituídos por casas, casas eram substituídas por indústrias, indústrias por terrenos baldios e, por fim, os terrenos baldios pela vasta terra de ninguém dos confins da periferia paulistana.
De repente paramos. Entre o nada e o coisa alguma. Portas abriram lá na frente. Depois a do chiqueiro. Vi a cara dos dois. Nada demais. A mesma burrice de cada um, só que dotada de alguma autoridade.
- Desce.
Desci, claro.
- Vira de costas.
Virei, óbvio.
- Toma o que é teu.
Esperei um tiro na nuca, mas estavam passando minha carteira. Não conferi.
- O que é que te aconteceu?
- Eu?
- Tem mais cego aqui?
- Não vi nada. O senhor mesmo tá dizendo que eu sou cego.
- Conta até cem.
- Um… dois… três…
Ouvi portas baterem.
- Quatro… cinco… seis… Ia sobreviver?
Ouvi o carro se afastando.
- Sete… oito… nove…
Virei.
- Dez…

Estava sozinho. Um pouco pra lá da casa do cacete. Só então abri a carteira. Ainda tinha um passe. E uma nota de um, benta, que a minha avó obrigava todos da família a carregar. Comecei a voltar. Uma placa anunciava Osasco dali a doze quilômetros. Amanhecia. Estava vivo. Não parecia, necessariamente, um mal sinal. Continuei andando. Sabia que ia andar muito… mas, será que na droga de um dia eu ia chegar à porra de algum lugar?

Achei este texto por acaso num antigo site meu… Li alguns poucos contos soltos do Fernando Bonassi, e devo dizer que gosto demais desta literatura de períodos curtos, diálogos mais ainda, que falam de um dia-a-dia urbano pulsante e pleno de vida.

Ah… Sabe-se lá porque, sempre que o leio penso todo o tempo nas antigas viaturas de polícia daqui de Salvador…


2 Responses to “Causo de Polícia”

  1. Leo,
    Durante todo o texto achei que a vítima teria sido você. Nossa, que desagradável…
    Muito bom o texto. Vou visita-lo. A indicação deve ser ótima.

    Beijinhos

  2. Adorei o texto! Não o conhecia… =]

    Beijoss

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