Eu, desempregado
Após quase 6 anos trabalhando na mesma empresa, fui demitido semana passada. Num desses processos de fusão entre instituições, tão comuns em tempos de economia globalizada e em que os resquícios de identificação, objetivos e direcionamentos sócio-filosóficos que porventura cada uma delas pudesse ter acabam perdendo-se um pouco em meio à lógica feroz do capital, que com sua assepsia niveladora e padronizadora tende a tudo assimilar acabei preferindo, por este ou aquele motivo, procurar outros caminhos pra minha vida.
A questão é que estou, após um enorme e constante período de atividade, em casa. Não deixa de ser uma sensação esquisita que, acostumado que sempre fui desde a adolescência a “estar produtivo”, me pegue agora pensando sobre o modo deturpado como eu talvez esteja conceituando produtividade; como qualquer coisa que remeta de certo modo a Carlitos, a um daqueles teóricos da teorias da administração do início do século passado, ou pior (e mais simbólico ainda), a um enorme, barulhento e azeitado conjunto de engrenagens em funcionamento.
Como ainda não tive tempo pra assimilar completamente minha nova situação, creio que somente lá pelo meio da semana que vem eu me pegue receando o desconhecido… por agora, me tem deliciado dum modo que eu não esperava coisas as mais simples, como por exemplo o fato de não ter rotina ou horário algum a seguir. Acordar sem ter de antecipadamente planejar o dia enquanto dou a rápida olhada no relógio é um deleite dos mais agradáveis, e já me percebi observando com olhar um pouco mais clínico do que o que seria de imaginar em alguém com meu temperamento pequenas coisas em casa que precisam ser feitas. Nos ítens “por fazer” já limpei meu aquário… pus certa ordem em meu quarto… estou organizando livros que pretendia ler desde sempre,.. venho ainda focando uma linguagem de programação com a qual pretendo trabalhar logo logo… refazendo contatos de trabalho… assistindo episódios de Anos Incríveis que ainda não tinha visto… dedicando-me à cachorrinha… a ver a tarde chegar pela janela do meu quarto (e é incrível como, morando neste mesmo lugar há tanto tempo eu não tivesse a mínima idéia de como que era o entardecer visto do meu quarto!), e mais outro tanto de pequenas coisas a uma primeira vista “desinteressantes”, mas ainda assim parte importantíssima neste processo de ócio criativo ao qual venho me dedicando.
Sobre o que vem pela frente eu não tenho a mínima idéia… afinal, é completamente nova pra mim a experiência de não ter emprego formal. Seja lá como for, vamos ver se consigo manter as engrenagens funcionais… Quem sabe se não encontro, no bem no meio deste intervalo entre “não fazer nada” e “arranjar novo trabalho”, o segredo do moto-perpétuo?
Parece que estou “me ouvindo” ao ler este comentário, trabalho desde os onze anos, criança eu era, ainda, me trancava no quarto nas tardes de domingo pra chorar porque quando chegava do trabalho todos os meus amigos tinham ido pro sítio de Dona Luiza (nossa vizinha que fazia a pentelhada subir em sua caminhonete pra levar a tchurma curtir uma dia no campo) e eu sempre ficava pra trás pq eles saíam às 13 h e eu chegava do “trampo” sempre depois das 15 h. Eta tempinho difícil, todavia é por isso tudo que hoje sou o que sou - se é bom ou ruim, não sei - o que sei é que como tudo na vida teve o lado bom e o ruim. O ruim é que me privei de vários passeios campestres e que significavam muito pra mim, porém, por me privar deles tive registro em carteira muuuiiiito cedo e hoje, enquanto eles que iam pro sítio ainda trabalham eu usufruo de uma aposentadoria, digamos…. precoce …. Então aprendi que é assim: nem sempre o que parece ruim ao extremo o é mesmo que no futuro e que nem sempre aquilo que parece ser tããããoooo bom o é, claro, aí vai a interpretação, ou antes, o viver de cada um… bjs Leo, tô adorando o que vejo por aqui, vou voltar mais vezes….