o quebra… o bate… o cospe… o maltrata…

Aquela coisa de sempre… música… poesia… bebida… mulheres… tecnologia… enfim… os motores do mundo.

12  03 2008

Travessuras da menina má

Menina Má
Já tinha lido do Vargas Llosa A Festa do Bode (La fiesta del Chivo). O livro é de uma veracidade brutal, até mesmo por descrever com qualquer coisa que, como recurso literário, lembra a secura, o modo como a truculência consegue fazer definhar mesmo a mais vivaz das personalidades. Mas deixo pra outra oportunidade a história de Trujillo… é que quero mesmo agora é falar do Ricardo e de sua chilenita (ou da pequena guerrilheira… da dama londrina… ou de qualquer outra das tantas facetas que ao longo da narrativa ela incorpora).

Na verdade acho que não estaria exagerando se afirmasse que esta é uma das leituras mais arrebatadoras de que tenho lembrança nos últimos meses. Gosto de autores latinos… aprecio o caráter grandiloqüente de sua literatura, seus amores que são todo um choro convulsivo ou uma alegria sem tamanho, e num ou noutro ponto, pura intensidade. Quando penso nisto a Menina Má, com seu tom morno e carente da vitalidade latina chega a destoar um pouco do que estou habituado a ver. Mas se é assim, porquê afinal venho, agora que terminei o livro, sentindo este desalento quase palpável… esta sensação de que vão ambos continuar me invadindo os pensamentos por semanas?

O livro tem pra mim um quê de angustiante, em particular por eu haver me identificado mais do que o que seria saudável com muita coisa nele à medida que o lia. Fala sem auto-comiseração ou pieguice, numa linguagem quase jornalística, do processo nem sempre fácil do amadurecimento; bem como da enorme sensação de vazio que traz a falta de objetivos de vida. A beleza maior de Ricardito é justamente esta… é um anti-herói sem qualidades marcantes… um qualquer, perdido no mundo, que em sua aparente mediocridade o mais próximo que chega do processo criativo é dar voz às idéias, anseios e aspirações de outros, e cujo ápice de emoção na vida é a proximidade de alguém que nem mesmo lhe parece querer bem… é ainda assim, a meu ver, preciosíssima esta sua qualidade, patente a cada página de, ainda que sem perceber, ser o porto seguro de alguém… E convenhamos… quantos de nós podem se orgulhar de ser o porto seguro de outrem?

Já vinha percebendo, desde o livro anterior, boa dose de comprometimento social na literatura de Vargas Llosa. Este livro tem como pano de fundo a provável época mais social e politicamente conturbada da história do Peru. E isto me agrada. É o sentimento que sobrevive às inquietações de um mundo em profunda mudança. É a adaptabilidade dos enamorados, resistindo às adversidades e ao tempo, para renascerem maiores e mais fortes logo à frente.

Dá pra dizer, sem medo de errar, que Ricardito e Lily protagonizam um dos mais trágicos, urgentes e poéticos casos de amor que já tive o prazer de ler.


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