o quebra… o bate… o cospe… o maltrata…

Aquela coisa de sempre… música… poesia… bebida… mulheres… tecnologia… enfim… os motores do mundo.

03 2008

As mãos do Rubén

Rubén González

O Rubén Gonzáles era um simpático velhinho, falecido no alto de bem vividos 84 anos. Poderia tranquilamente ser mais um dos senhores de olhares às vezes distantes e risos sempre fáceis que a aposentadoria traz invariavelmente nos finais de tarde para encher os espaços debaixo das poucas frondosas árvores do meu bairro, a observar entre desinteressados e maliciosos a beleza brejeira das meninas namoradeiras que vão à padaria. Estão todos por ali, os velhinhos… repletos duma força toda cheia de nobreza que só o acúmulo de tanta experiência pode dar… Uma força que é aplicada às vezes com ferocidade na discussão de temas que variam da política nacional a temas mais corriqueiros, como o carro novo desta ou a mudança daquela família do bairro.

Mas o que diferenciava o Rubén dos velhinhos do meu bairro eram as mãos… As do Rubén eram também trêmulas e incertas, como as dos velhinhos dos jogos de dominó ou carteado daqui. Só que as do Rubén trouxeram por décadas pro mundo a beleza quente de intensidade quase inigualável da melhor música cubana. Rubén tocava piano. Um piano cujas emoções despertadas em quem o escutava poderiam variar bastante. Era o gigante que tirava frescor e vivacidade adolescentes de uma música cujo ritmo e compasso já são naturalmente fortes. E no entanto, a um olhar mais atento era o velhinho de aparência frágil, olhos vidrados e cabelos ralos grisalhos que com uma simplicidade que fazia tudo parecer fácil dançava com desenvoltura em cima do instrumento… Era como se a música e o instrumentista não combinassem, em alguns momentos! E foi este extraordinário instrumentista que, redescoberto e trazido do ocaso em que vivia formou, com outros tantos senhores como ele, também esquecidos, um dos maiores grupos de instrumentistas de música latina de todos os tempos.

E é ao Rubén e à sua trupe de velhinhos, e à força de pessoas como ele, que não deveriam nunca morrer, que rendo minhas homenagens.


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