Ó paí, ó
Vi por esses dias Ó paí, Ó. O filme tem todo um desenrolar gostoso de se ver. O que não significa que sua característica mais marcante seja o enredo. Até porquê enredo ele definitivamente não tem. É mais uma - aparentemente - despretensiosa e interessantíssima colagem de pedaços da vida diária de tipos característicos do Pelourinho que qualquer outra coisa.
Ainda que todo marcado por uma aura de leveza, o filme tem uma das cenas mais fortes que lembro de ter visto no cinema brasileiro (talvez com a honrosa exceção da curra que sofre a Lucélia Santos em Bonitinha, mas Ordinária). Escutar o Wagner Moura, imbuído da manta do desprezo mais descarado que o papel exige, usar de todas as nuances de variações de uma palavra para com ela ferir, desarmar e humilhar toca fundo. A peja de “negro” usada por ele traz consigo o peso de gerações de jugo, humilhações e submissão moral a que um povo inteiro foi (é?!) submetido. E é mesmo emblemática a forma com que esta última instância da humilhação invariavelmente aparece em momentos de tensão. É a sociedade que, acuada, despe-se de seu frágil esmalte de civilidade e trazendo para a esfera da ação o sentimento que em geral mantém no terreno da recriminação velada, fala: “Você pode ascender socialmente… pode estudar e se destacar em seu grupo. E ainda assim, é e vai ter sempre esta cor de pele. E, no final das contas, é ela que vai dizer até onde você vai”. Mas daí vem, como um contraponto feroz a esta realidade, a resposta ferina do personagem do Lázaro Ramos. E que, é bom que se diga, reconfortante de ver e ouvir.
No mais, o filme tem a Emanuelle Araújo com aquela beleza que é toda frescor… e se passa bem no meio do Carnaval de Salvador… E, não bastasse isso, os tipos característicos estão todos por ali (travestis e percussionistas incluídos).
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