Dos tsuru que já fiz
Lembro de ter lido em qualquer lugar a respeito da relação direta que haveria entre o grau de felicidade de um homem e a quantidade de “tsuru” que ele conseguiria fazer vida afora… Creio mesmo que, ainda segundo esta mesma lenda, o alcance máximo da realização humana estaria aí pelas suas mil dobraduras. Isto equivaleria ao Nirvana, ou outro estado espiritual qualquer que o valha. Eu, que tenho o tipo irrequieto de mãos nervosas por natureza, se apanho pela frente qualquer pedaço de papel é um sapinho, tsuru ou flor de lotus em potencial o que vejo, o que significa que no que diz respeito a tsuru em particular, devo andar pelos 863 já feitos, incluídos aí papéis de bala, relatórios do trabalho, papéis de rascunho e afins. Estou me utilizando obviamente da aritmética do Romário para calculá-los, já que não tenho o hábito de contá-los enquanto os vou dobrando… Se ele tem seus mil gols, tenho cá os meus 863 origami e estamos conversados.
Pelo que li da tal lenda, acabei concluindo cá com os meus botões que a enormidade da quantidade de dobraduras exigidas teria a ver com o exercício de paciência e busca da perfeição envolvidos em sua elaboração. Afinal, tsuru (ou grous, como também são conhecidos) vivem mil anos, e quem já os fez pode bem afirmar quão lúdico e envolvente é o ato de dobrar papéis. O que teoricamente a longo prazo moldaria o caráter do indivíduo. E isto claro sem falar na beleza cheia de simetria do resultado final, tão característica das realizações dos orientais. É o prazer simples que o artesão sente ao moldar qualquer coisa, dando-lhe forma e vendo surgir algo de onde antes só havia nada. Ou papel, como se prefira…
Tsuru à parte, ontem construí minha primeira casa. Explico: temos um pequeno sítio que tem sido, já há algum tempo, meu refúgio favorito de tudo que é concreto, exato e lembre responsabilidade ou rotina. O tempo por aqui tem um correr todo próprio; o que pode ser facilmente confirmado quer pelo desenrolar lento das tardes na varanda, regadas a cantos de todos os tipos de pássaros, mugidos e grunhidos - acompanhados de acenos - de completos desconhecidos que passam ali pela estrada de terra batida logo à frente (que, como manda a boa tradição do interior, devem ser retribuídos com outros grunhidos e acenos do lado de cá), quer com a caminhada de 10 minutos até a praça do vilarejo próximo, ela toda igrejinha, campo de futebol meio tosco e casinhas geminadas de presépio amarelas, azuis, rosas e verdes (ou quaisquer que sejam as cores que sobram delas, depois que desbotam). É que aquele pôr-de-sol triste, belo e com variações de todas as cores daquela pracinha não acaba nunca! É como se as únicas coisas que tivessem um pouco de vida naquilo tudo fossem o arfar descompassado e a baba de meu cão, companheiro de passeios, que com o olhar pachorrento e a língua amiga, parece me entender sem palavras. Ou talvez só queira mesmo mais um afago… quem vai saber…
Mas eu falava da minha “casa”. Pois é. Meu pai está construindo um tipo de barracão onde pretende pôr tralhas (ele as chama de ferramentas. Mas conhecendo-o, já as vejo substituídas por tralhas logo na segunda ou terceira semanas de uso), e chamou um rapaz aqui mesmo do vilarejo para construí-lo. Mesmo pra meus olhos destreinados, o menino não parece ser exatamente o mais habilidoso dos pedreiros do mundo, mas tem boa vontade e é bastante bem humorado. Eu sempre gostei do jeito franco das pessoas daqui. Fazem esquecer um pouco da complexidade neurótica da gente da cidade, e vê-lo chegar logo pela manhã, com o ar despreocupado, gaiola na mão com um passarinho “bom que ele só, seu léo!” faz pensar nas delícias que podem haver em “levantar, tomar café quente, dar comida aos pássaros, ir à lida, tomar café quente e dormir”, como o meu amigo tão sabiamente dedica-se a fazer sem maiores delongas ou mesmo consciência aparente de que possam haver outros modos de vida que não o seu.
Olhando agora de onde estou, percebo com um pouco mais de nitidez que o pedaço de casa que eu e meu amigo começamos ontem a levantar está um tanto longe do que poderia ser considerado um primor de arquitetura… não importa… eu não conseguia fazer tsuru perfeitos quando comecei, tampouco… ela está bem ali… bem onde vai estar quando eu voltar aqui… Os tsuru que já fiz foram ficando aqui e ali… presenteados… jogados… mas fizeram todos eles parte de um interessante e envolvente processo: a busca pela perfeição. E quer saber? Tenho cá qualquer coisa a me dizer que minha próxima casa vai ser mais bonita ainda que esta.
Leave a Reply