o quebra… o bate… o cospe… o maltrata…

Aquela coisa de sempre… música… poesia… bebida… mulheres… tecnologia… enfim… os motores do mundo.

30  11 2007

As encíclicas do papa

Essa semana o papa redigiu uma encíclica (fui ao dicionário, e a definição que encontrei para a palavra foi “Carta circular pontifícia, dogmática ou doutrinal”) em que afirma que o ateísmo, com sua negação à existência do deus, seria o responsável por “algumas das piores formas de crueldade e injustiça da história moderna” (palavras do uol). Ainda segundo a mesma matéria, o papa afirma achar compreensível tal comportamento de afastamento da divindade, que poderia ser visto como um ato de “protesto” diante do tanto de sofrimento pelo qual o mundo vem passando.

A afirmação traz em si qualquer coisa de irônica, em particular quando se tem em mente que poderia tranquilamente ser usada em referência à própria ’santa’ igreja e seu histórico de maldades e intolerância para com as diferenças. A mesma intolerância, aliás, mostrada pelo próprio papa ao condenar de modo tão pronto o que chama de “a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz e nem é capaz de fazer”. Fico cá pensando onde estariam os limites do que o homem pode ou não fazer. Seriam ditados pela igreja e seus teólogos, talvez? Partindo do pressuposto de que fossem, estariam automaticamente perdoadas as atrocidades cometidas pelos europeus em suas assim chamadas “santas cruzadas”, já que foram todas abençoadas pela igreja e cometidas “em nome de deus” e da mesma intolerância que levava a converter quem conseguisse, e aniquilar o resto?

Outro trecho da matéria que me chamou a atenção é o que o papa fala sobre o suposto erro maior da obra de Karl Marx, que seria segundo ele ter esquecido da variável “liberdade do homem” na elaboração da equação que lhe permitiria entender o mundo à sua volta. Ora, até onde sei é da igreja a política do convencimento pelo obscurantismo. O princípio de “seguir sem conhecer ou entender” sim, me parece puro cerceamento de liberdade (da de escolha, pelo menos)… é evidente a ironia do argumento do papa, portanto… até porque a igreja, detentora do saber durante toda a idade média, foi ainda assim a maior opositora histórica das conquistas da ciência com seu posicionamento conservador e ritualístico, avesso a qualquer comportamento questionador. Esta forma de ver o mundo pode ter funcionado maravilhosamente num período histórico caracterizado pela crença cega em superstições e lendas… mas chega a ser ingênuo imaginá-lo no mundo do compartilhamento da informação.

Por fim, o próprio caráter das encíclicas é a meu ver um tanto nebuloso, já que atribui status de verdade absoluta (e realmente o é para toda uma legião de seguidores fiéis) a afirmações sem maior embasamento teórico que as opiniões deste ou daquele teólogo. Muito pouco, a meu ver, para se contrapor ao estudo científico baseado na observação dos fatos de Marx.


2 Responses to “As encíclicas do papa”

  1. Leo (olha a intimidade…rsrs) Nunca é tarde para um abraço ou um desejo de felicidade, pelo menos não pra mim! Beijão

  2. Leo,
    Saudades sempre..
    Reparei que sempre escreveste Deus/deus com letra minúscula. Interessante isso…
    Sabe, acho que não precisamos ir tão no passado para ver o papel da Igreja e da crença na sociedade. Ainda hoje algumas guerras são realizadas em nome da fé. Não necessariamente só da Igreja Católica. Entre não acreditar em Deus/deus e ficar com a paz ou acreditar e brigar por essa crença eu prefiro mil vezes ficar na descrença.
    Apesar de que estou trabalhando minha fé. Que não tem um Deus/deus personificado, mas que crê.
    Beijos querido,
    sensacional isso que escreveste
    Lu (a paraense)

Leave a Reply

« E se acabarem com meu Carnaval? El viejo comunista »