O Sr. Ling
Todos os dias, a caminho do trabalho, passo em frente a uma pastelaria. Bom… na verdade passo por duas delas (o que bem mostra quão difundido está entre nós o hábito de comer pastéis), mas cada uma me chama a atenção a seu próprio modo, e uma delas - que é sobre a qual pretendo falar - mais que a outra. A primeira tem no balcão uma menina que logo de cara me encanta as manhãs com um sorriso. É que, sendo em geral o primeiro dos sorrisos que vejo pela rua (apesar do número bastante razoável de carrancudos por quem já passei até chegar a ela), acaba sendo marcante a um só tempo pela beleza e pela espontaneidade. Não a vejo todos os dias… algumas vezes acho que está lá por dentro fazendo o que quer que façam os pasteleiros nos “lá por dentro” de seus estabelecimentos, mas sempre que está “cá por fora”, o sorriso largo e franco é invariável, fechando-lhe ainda mais os olhinhos já por natureza puxados. Imagino que seja filha dos donos do lugar, vez que me parece jovem demais pra dirigir um negócio… Isto, ou então orientais jovens e bonitas à frente de pastelarias fazem parte de alguma milenar tradição chinesa. Sim, porque se eu até aqui ainda não havia deixado claro de que tratavam-se ambas de pastelarias de chineses, é meio que por achar de uma redundância tal que beiraria o desnecessário… Afinal há, creio eu, uma dessas leis não escritas que regem o mundo e que rezam que pastelarias são, e serão até o final dos tempos, dirigidas por chineses como o são padarias por espanhóis ou portugueses e mercearias e casas de tecidos por turcos. É fato, e não há globalização, com suas grandes, internacionalizadas e diversificadas lojas de departamentos que consiga mudar este esquema de coisas.
O que me leva ao Sr. Xing Ling, inspirador deste texto. Há uma leve possibilidade de que seu nome real não seja este, já o Sr. Ling e eu nunca chegamos a trocar uma única palavra. Mas tomo a liberdade de chamá-lo assim com a naturalidade com que um jovem chinês, escrevendo agora em longínquas terras orientais um texto qualquer sobre um latino hipotético, o chamaria a título de ilustração de “Gonzalez” (ou “Da Silva”, em se tratando de brasileiro). Pois o Sr. Ling ilustra magnificamente o que quis dizer logo acima com “carrancudos por quem passo todas as manhãs”. Dia após dia, lá está o Sr. Ling e sua máscara imutável e inexpressiva de qualquer coisa que eu definiria como “total indiferença diante da vida”. Sua pastelaria é mais antiga e mal-cuidada que a da menina sorridente. Eu de fato não chego a crer que a higiene esteja entre os critérios mais importantes da vida do Sr. Ling, a julgar pela toalhinha que ele tem sempre nos ombros, provavelmente lavada às sextas-feiras (e somente às sextas-feiras) e que é usada pra qualquer propósito dentro da pastelaria, indo de limpar o balcão a sabe-se lá mais o que; e na qual é possível perceber os vestígios de uso semana afora. Venho notando também que a pastelaria do Sr. Ling não é exatamente a mais sortida que eu já tenha visto, e não tem também nada que venha a lembrar uma “freguesia fiel”… de fato, não lembro de - em todas as vezes em que passei por lá - ter visto mais de 2 pessoas sentadas ao mesmo tempo tomando o refresco e comendo um dos salgados vendidos a módicos R$ 2,00. Cabe aqui um aparte, porém. Passo pela pastelaria um pouco cedo demais, o que dá ao Sr. Ling o benefício da dúvida, e me faz imaginá-lo num outro horário qualquer do dia atarefado a ponto de chegar a esboçar um início de sorriso, e sacudindo frenetica e magistralmente sua toalhinha das sextas-feiras. Deve ser inclusive para ajudá-lo nessas horas que o Sr. Ling tem um auxiliar. Vejo-o apenas de vez em quando, ajudando-o a compor a paisagem estática das primeiras horas do dia. Evidentemente, tem sua própria toalhinha, bem como sua própria máscara de tédio e desânimo. De fato, às vezes chego a imaginar que nos fundos da pastelaria há um daqueles pequenos ginásios como os que se vê em filmes e os chineses treinam kungfu, servindo a pastelaria apenas como fachada do que seria o verdadeiro negócio do Sr. Ling: Mestre e instrutor das artes ocultas do Kung fu chinês!
Mas o que importa é que pretendo dia desses fazer uma visita ao Sr. Ling e experimentar um de seus pastéis com refresco (preferencialmente numa sexta-feira, por motivos óbvios), quem sabe levando com ele e seu auxiliar meio dedo bem medido de prosa, e aproveitando meu tour gastronômico pra visitar também a chinesinha de sorriso bonito na pastelaria concorrente.
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