Quem me dera ao menos uma vez…
Passou ontem à noite na Globo um tipo de especial sobre a vida do Renato Russo. O programa em si, cujo principal recurso usado foi intercalar cenas reais do cantor com as de um ator (que não era lá tão parecido com ele, é bom que se diga) ficou a meu ver meio xinfrim basicamente por dois motivos: o primeiro é que os atores não conseguiam segurar a atenção, com interpretações meio fracas e desencontradas. E depois, a verdade é que é bem provável que tanto eu quanto qualquer outro dos trintões do país conheça mais da a vida de Renato Ruso que da dos próprios irmãos. Qualquer documentário que se preste a falar da vida de alguém assim tão popular deve, já que trata de tema batido e conhecido, pelo menos tentar seduzir por outros meios que não o despejar puro e simples das informações, e o documentário de ontem não conseguiu. O que fez com que o programa pra mim, logo em seu primeiro bloco, assumisse a importância secundária de pura composição da ambiente que em geral reservo à tv quando a deixo ligada à noite…
Mas o caso é que a certa altura do programa, lá estava eu, laptop no colo, teoricamente mais preocupado em checar emails ou ler esta ou aquela resenha interessante nos blogs da vida, cantarolando músicas que não escutava há anos! E daí, com a força de um murro, veio a torrente de lembranças de uma adolescência cuja trilha sonora poderia ser toda, sem prejuízo algum de sua riqueza de acontecimentos, descobertas e realizações, contada pelas canções de Renato Russo. Lembro como se fosse hoje do primeiro álbum da Legião Urbana que escutei. Foi na verdade uma fita cassete (é… elas existiam, e tenho provas aqui comigo!) de Dois, aquele que é sem sombra de dúvida seu melhor trabalho… Aliás, porque não dizer, provavelmente o melhor trabalho de quem quer que já tenha pegado um violão pra cantar as neuras, desventuras e questionamentos de adolescentes em terras tupiniquins. Renato Russo sempre teve, a meu ver, algumas características que o tornavam único no cenário dos cantores de bandas de rock and roll daqui numa época em que pipocavam excelentes músicos. O carisma pessoal… as atitudes de contestação, rebeldia e incerteza diante da vida que o aproximava de forma tão natural de seu público, pelo fato de serem sinceras… A inteligência viva que lhe permitia transitar com a mesma facilidade na turma do trovador melancólico e do punk socializado… enfim, o tipo de ícone natural que, ainda que não quisesse, arrastaria multidões invariavelmente.
Quem foi adolescente nos anos 80 provavelmente foi sortudo o suficiente pra vivenciar o surgimento e amadurecimento (infelizmente, também a posterior derrocada, mas aí já é uma outra história) das grandes bandas de rock brasileiras. Eram rapazes contestadores, com muito conteúdo, vociferado suas pérolas de protesto a ouvidos que despertavam por meio do bom e velho rock para os problemas do mundo (e que forma melhor poderia haver para este despertar que a música, penso eu cá comigo?). E Renato Russo, com a gravidade de sua voz, encarnou como nenhum outro o papel de arauto das novas. Eu, menino dos 80 que fui, lembro com carinho da importância que a Legião Urbana teve em meus tempos de colégio. É que meu colégio de padres, tradicional e respeitável como as próprias bases do catolicismo, rendeu-se às animadas rodinhas de violão… que nesta época, tornam-se em rodinhas de violão para se tocar Renato Russo. E ai daquele pobre coitado que se arvorasse a sair à rua com um violão às costas e não saber tocar (ainda que toscamente) Tempo Perdido! Execração pública (e guris de colegial podem ser extremamente ferinos quando querem)! E pensar que eu, que mal conseguia decorar a equação da massa, aceleração e que tais, sabia de cor e salteado Faroeste Caboclo e outros tantos hinos. Legião Urbana está, junto com os ioiôs, álbuns de figurinhas coloridas com símbolos de águias e bandas de rock que ninguém conhecia e os jogos de volei disputados durante aulas filadas entre as lembranças mais nítidas e saudosas de meus tempos de colégio…
Não vou exagerar a ponto de dizer que goste da carreira inteira de Renato Russo… Acompanhei de perto seus trabalhos mais ou menos até o álbum “As quatro estações”. E quando digo “acompanhar de perto”, quero dizer que é bem provável que eu saiba as letras de todas as músicas de todos os álbuns (basezinhas de guitarra e viradas de bateria cantaroláveis incluídos). E daí que eles não soubessem tocar? Foram a maior banda dos anos 80, e eu não teria sido quem sou, se não tivesse havido Renato Russo e a Legião Urbana…
Dedico o texto a Marcus Vinícius “doly”, o mais completo legionário que conheço, cujos devaneios podem ser lidos em seu divã
Meu amigo Léo,
eu realmente não posso discordar de nada do que aqui foi postado. De fato o especial não teve nada de especial, tudo foi fraco, não houve qualquer novidade e eles erraram coisas básicas.
Mas de fato não podemos esperar que um programa de televisão possa resumir uma vida tão intensa - e curta - como foi a do Renato, sobretudo por esse (o programa) ter apenas uma hora de duração.
No mais agradeço a homenagem e lembrança e deixo um grande abraço do amigo Doly.